Receber um exame mostrando colesterol alto não significa automaticamente que você precisa tomar uma medicação.
Também não significa que basta olhar para o valor de referência impresso ao lado do LDL.
A decisão depende principalmente de uma pergunta: qual é o risco cardiovascular daquela pessoa?
O mesmo LDL pode significar coisas diferentes
Imagine duas pessoas com LDL de 100 mg/dL.
Uma é jovem, não fuma, tem pressão normal, não tem diabetes e não apresenta doença cardiovascular.
A outra já sofreu um infarto.
Embora o número seja exatamente o mesmo, a interpretação — e a meta de tratamento — são completamente diferentes.
É por isso que as diretrizes atuais trabalham com metas de LDL definidas de acordo com o risco cardiovascular.
Quem costuma precisar de tratamento medicamentoso?
A indicação é particularmente importante em pessoas com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida, como infarto, AVC de origem aterosclerótica ou doença arterial periférica.
O tratamento também pode ser indicado em pessoas sem eventos prévios quando o risco cardiovascular é elevado, em determinados pacientes com diabetes ou doença renal e em casos de elevação importante do LDL, especialmente quando existe suspeita de hipercolesterolemia familiar.
Nos indivíduos em prevenção primária, a decisão considera o conjunto: idade, pressão arterial, tabagismo, diabetes, colesterol, função renal, antecedentes e modificadores de risco.
Alimentação e exercício não substituem a medicação?
Depende.
Alimentação adequada, exercício, controle do peso e abandono do tabagismo são fundamentais, independentemente de usar ou não medicamento, mas podem não ser suficientes.
Exercício físico e alimentação reduz em até 20% o LDL (colesterol ruim).
Mas, quando existe indicação de tratamento farmacológico, mudanças de estilo de vida e medicação não são estratégias concorrentes.
Elas se complementam.
Estatina é sempre a primeira opção?
As estatinas permanecem como a base do tratamento farmacológico para redução do LDL e do risco cardiovascular em grande parte dos pacientes.
Além de reduzir o LDL, as estatinas tem os chamados “efeitos pleiotrópicos”, que são benefícios terapêuticos extras que acontecem no corpo, independentemente da redução do colesterol LDL, como ação anti-inflamatória, estabilização da placa de gordura (reduzindo o risco de rompimento e de infartos ou derrames), melhora da função endotelial (facilitando o fluxo do sangue) e redução do estresse oxidativo (redução dos radicais livres que machucam os vasos e tecidos).
Quando a meta não é atingida apenas com estatina na dose máxima tolerada, outras terapias podem ser associadas, como ezetimiba e, em situações selecionadas, inibidores de PCSK9, ácido bempedoico e outros agentes.
Então qual LDL é “normal”?
Essa talvez seja a pergunta errada.
Mais útil é perguntar:
“Qual é o LDL adequado para o meu risco cardiovascular?”
O resultado do laboratório é apenas uma parte da avaliação. A indicação de tratar e a intensidade do tratamento devem ser individualizadas.
Referências